Relator da CPI do MST, Ricardo Salles entrega trabalho técnico após meses de investigação
O deputado federal Ricardo Salles (na época, PL-SP) atuou como relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigou as ações do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), instalada em maio de 2023 após uma onda de invasões de propriedades rurais registradas no sul da Bahia e em Goiás.
Ao longo de mais de quatro meses de trabalhos, a comissão ouviu depoimentos, realizou diligências em diferentes estados e reuniu um volume expressivo de documentação sobre a atuação de movimentos ligados à reforma agrária. O resultado desse esforço foi consolidado por Salles em um relatório final de 280 páginas, apresentado em 21 de setembro de 2023.
No documento, o deputado classificou como “facção sem-terra” as práticas de grupos que, segundo ele, recorrem a invasões de propriedade, sequestro, roubo e apropriação indébita sob o discurso da reforma agrária. O relatório também apontou a Bahia como principal foco de problemas relacionados ao tema, citando o que classificou como conivência de autoridades locais.


Como parte das conclusões, Salles recomendou o indiciamento de 11 pessoas, entre elas o então ex-ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Gonçalves Dias, acusado pelo relator de ter prestado informações falsas à comissão sobre o recebimento de relatórios de inteligência relativos a invasões de terra. Também constava da lista o líder da Frente Nacional de Luta Campo e Cidade, José Rainha.
O trabalho foi destacado à época como um dos mais extensos já produzidos por uma CPI sobre o tema — a quinta desde que o assunto passou a ser investigado pelo Congresso — e mobilizou a Frente Parlamentar da Agropecuária, da qual Salles é integrante.
Resistência política ao relatório
Apesar do volume de trabalho, o relatório de Salles não chegou a ser submetido a votação. Parlamentares da base governista pediram vista coletiva do texto logo após sua leitura, adiando a deliberação para a semana seguinte. Na sequência, o prazo de funcionamento da comissão se esgotou antes que a votação pudesse ocorrer, e os trabalhos foram encerrados sem a aprovação formal do parecer.
Em coletiva de imprensa, Salles classificou o desfecho como resultado de “manobras regimentais e cooptação governamental”, e reafirmou que, do ponto de vista do conteúdo, considerava que a comissão havia cumprido seu papel investigativo. À CNN, chegou a declarar que o “centrão enterrou a CPI”, ao criticar a articulação que impediu a conclusão dos trabalhos nos moldes propostos por seu relatório.

